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Manifestações e manipulações: um alerta e um viva!

 

Por Rosivaldo Toscano Júnior. *

Confesso que estou atônito e buscando refletir sobre a dimensão que essas manifestações populares vêm tomando. De certa forma, alegram-me e me lembram o poema “O Povo ao Poder”, de Castro Alves, quando diz

 

“A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor.

Senhor!... pois quereis a praça?

Desgraçada a populaça

Só tem a rua de seu...

Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos...

Deixai a terra ao Anteu.”

 

Ou, ainda, nessa passagem:

 

“A palavra! vós roubais-la

Aos lábios da multidão

Dizeis, senhores, à lava

Que não rompa do vulcão.”

 

De outro lado, preocupam-me os rumos da construção de um clima de niilismo, que abre espaço para discursos totalitaristas. 

 

Em todo caso, há algo de novo no ar em relação às manifestações populares que de uns meses para cá vêm tomando conta das grandes cidades. Tudo começou, ao que parece, com um movimento contra aumento de tarifas de transporte (e, claro, sabemos que quem usa transporte público é quem vive no andar de baixo da pirâmide social) passou, posteriormente, a também abarcar a denúncia da truculência policial e, a partir disso, a defesa da própria liberdade de expressão.
 

A mídia hegemônica fez sua cobertura de sempre, “criando realidades” em suas edições, visando a já comum criminalização desses movimentos sociais e, também, a defesa inconteste e legitimadora dos eventuais abusos das forças repressivas. O velho pretexto de proteção da “ordem”. Esqueceram, porém, de combinar com os russos: não dá mais para ignorar as redes sociais e os flagrantes gritantes de desrespeito, abusos e violência que saltaram na internet.

 

Ficou insustentável continuar culpando os manifestantes. Seria uma  cobertura jornalística esquizofrênica. Diante da inevitável desmoralização, a grande mídia “aderiu”. Houve quem se desculpasse da postura anterior. Nada melhor, então, do que “pautar” as reivindicações ou dissolvê-las em um caldo confuso. Ao invés de temas sociais (desigualdades, liberdade de manifestação e de opinião, reforma política, diversidade cultural, sexual e religiosa ou até mesmo a dimensão dos gastos com a Copa em face de nossas deficiências), pode-se propagandear o moralismo de sempre. O combate à corrupção. Afinal, passa-se a imagem de que somente há poucos anos se descobriu, convenientemente, que há corrupção por essas Terras de Vera Cruz.

 

E era preciso uma correção estratégica para tentar manter o controle: de repente, os “baderneiros” viraram “heróis” nos telejornais.

 

E a tentativa de pautar as massas está se dando por meio de uma reedição do “Cansei”. Um “Cansei 2”. Vários atores, inclusive, passaram a posar com uma maquiagem de olho roxo e cara de velório, em alusão a uma repórter que foi atingida por uma bala de borracha. O slogan não poderia ser mais impactante e vazio: “muda Brasil”. Isso leva a uma ideia de movimento, de mudança. Mas, afinal, será que mudar por mudar é o que importa? Será que nada mudou? Será que toda mudança implica em avanço? Em 1964 tivemos mudanças por aqui... Ou será que, antes, precisamos refletir para onde a mídia hegemônica está querendo nos mudar? Ou somos nós que decidimos para onde devemos ir? As redes sociais devem continuar sendo o espaço em que esse diálogo se instrui e se constrói. É por isso que escrevo este texto. Como uma janela ao diálogo. E um ponto para reflexão.

 

Pois é o esvaziamento ideológico do discurso do inconformismo que me preocupa. Dentro desse slogan vazio “muda Brasil” – que a grande mídia quer inserir nas reivindicações legítimas populares – cabe tudo. É uma espécie de Royal Straight Flush retórico. A partir dele parece que o jogo está ganho. Mas quem é o dono das cartas? Portanto, uma estratégia que pode estar sendo usada não inclui mais nem reprimir as massas, nem eleger uma ou outra causa, como um moralismo seletivo. Trata-se também de defender todas as causas! A partir daí, forma-se o clima de desassossego, de insatisfação com “tudo-o-que-está-aí”.

 

Manipula-se o medo e a insatisfação. E em determinadas situações o medo é mais perigoso do que a coragem. O medo gera a histeria. O estouro da boiada. Assim, vi gente defendendo até a deposição forçada da Presidente da República, legitimamente eleita, sem fundamento concreto nenhum. Defender isso é defender golpe, cara-pálida. Em 1964 foi assim.

 

Muito bacana ver o povo nas ruas. Já fui Cara-Pintada. É o poder Potentia. Mas um alerta. É preciso pontuar o que se está defendendo. Há, pelo que entendi, uma pauta de direitos sociais, que inclui a melhoria dos transportes públicos, o direito de reunião, a liberdade de expressão e de manifestação. Isso é ter uma referência. O que a mídia está fazendo parecer é que é um movimento contra “tudo-o-que-está-aí” – sem uma proposta que não seja uma mera “mudança”. E tem gente comprando a ideia. Isso, para mim, é perigoso para a democracia. Cria-se um encobrimento das questões sociais e se perde a referência e a contextualização do que se quer, efetivamente, alcançar.

 

Ora, o ser contra o “tudo-o-que-está-aí” não leva a nada porque não é propositivo. Sendo mais claro: a melhor forma de dispersar um movimento que tem uma causa é dar a ele todas as causas... Vira niilismo. A negação total. E toda negação é infantilizadora e destruidora. A negação total é a pulsão de morte, diria Freud.

 

Tem um quê de manipulável em toda insuflação, em todo ato de paixão – em que não há espaço para reflexão. Não há espaço para uma pauta de reivindicações e nem para um diálogo democrático onde está instaurada a histeria. Foi assim que ocorreu com a revolução francesa. Muito sangue derramado da plebe para, ao final, trocarem-se apenas os senhores: do aristocrata para o burguês. Precisamos estar atentos para que as massas não virem, no final, massa de manobra de interesses que não são delas.

 

Há algo de novo no ar. Algo positivo. Uma tomada de consciência do que seja cidadania e democracia. De que o povo é o poder Potentia (a legitimidade, o poder difuso no povo, do § único do art. 1º da Constituição) e que todo poder Potestas (materializado nas autoridades que o representam) só é legítimo quando obedece ao poder difuso na comunidade. Todo poder institucional é, assim, um Poder Obedencial. Mas que estejamos alertas de que não podemos permitir que: a) se manipule e se desvie das verdadeiras reivindicações sociais e concretas; ou, mais grave, b) que se mande nossa democracia para o espaço em nome de uma “mudança” cuja direção não se sabe qual é. Feito esse alerta, viva ao “Gigante da Calçada”!

*Rosivaldo Toscano dos Santos Júnior é juiz de direito e membro da Associação Juízes para a Democracia - AJD
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NOTA UNAA: O texto do amigo Rosivaldo, é um chamamento à reflexão, principalmente quando ouvimos comentários descabidos, não só do capacho da ditadura Jabour, mas de outros inocentes úteis, ou inúteis como queiram, que clamam em seus comentários por um golpe militar sem ter a mínima idéia do que isso representa e do retrocesso que isso causou ao nosso País. 

Tato


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